Feu! Chatterton – “Palais d´argile”

Bonjour! São os Feu! Chatterton. Antes de abordar o álbum que aqui me traz, vou sintetizar um pouco daquilo que é a banda e o seu trajeto, até aqui. Vocês podem passar à frente, têm essa vantagem. Se devem? Nem por isso. Os Feu! Chatterton são uma banda de rock francesa que, este ano, atingiram uma década de existência. Já frequentam a música, com muita frequência, desde 2011. Estão sediados em Paris, entre as torres e os triunfos. A banda tem o nome que tem, em homenagem ao poeta inglês Thomas Chatterton, que se suicidou aos 17 anos. Poeta do séc.XVIII, que esteve sempre rodeado pela pobreza e que, mesmo com esse handicap, foi um dos principais influenciadores dos designados artistas românticos, daquela época. Era admirado por Shelley ou Wordsworth. Os Feu! Chatterton comprovam a sua admiração ao autor, através da sua existência musical. A banda é composta por: Arthur Teboul (voz), Raphaël De Pressigny (bateria), Antoine Wilson (baixo), Sébastien Wolf (teclado e guitarra) e Clément Doumic (guitarra e teclado).


O “Palais d´argile” é o álbum mais recente da banda, lançado a 12 de Março de 2021. Este álbum é a confirmação do grupo francês, a crítica ficou rendida e é fácil perceber o porquê. Quem quiser ouvir o álbum, na sua totalidade, que reserve uma boa hora, a passar. É um álbum espesso, com 14 faixas. A quantidade deste trabalho, tinha tudo para ser uma condicionante no resultado final. O som podia cair em fadiga e afastar-nos um pouco do ideal pretendido. No entanto, apesar da extensa duração com que o álbum se apresenta, ficamos agradavelmente surpreendidos com aquilo que álbum nos oferece.


A faixa que abre o trabalho é a “Un Monde Nouveau”. Esta música convence-nos, desde logo e desde que a ouçamos. As percussões são temperamentais e, quando chegamos ao refrão, somos brindados com uma magia de sintetizadores, uns rasgos deliciosos de slides nas guitarras e o resto é história. Este mundo novo é admirável, e não é do Aldous Huxley. A “Cristaux liquides” vive de um baixo saliente, uma música mais calma, mas que com o decorrer do groove, o grito da revolta da faixa vai-se acentuando. A segunda metade desta música é uma surpresa eletrónica. Perdoem o spoiler. No “Écran Total”, ouvimos uma espécie de continuação da identidade da faixa anterior. A eletrónica patrocina ritmos dançáveis. Ao ouvir este som lembrei-me do mood que também podemos encontrar nos White Haus. Pára tudo! Chegou a “Avant qu´il n´y ait le monde”. O piano traz-nos o embalo duma balada, traz-nos a chuva para os vidros duma sala de televisão apagada. O Arthur Teboul tem um tom interpretativo semelhante àquele que ouvíamos no Serge Gainsbourg. Dito isto, está tudo dito. “Compagnons”, conta com um início quase retirado de um ensaio. Temos a inclusão de maracas, pandeiretas, e de outros instrumentos que até esta faixa estavam ausentes. Em suma, pegaram nos instrumentos do “Cantar as Janeiras” e fizeram as boas-vindas para uma faixa diferente e alegre. “Aux Confins”, eis que o (hip) pop também nos acena. Se não for a vossa cena, olhem… não é. No entanto, os instrumentos de sopro aparecem na segunda metade da música, como se tivéssemos duas músicas numa só. A “La mer”, começa doce mas, de forma súbtil, somos arrastados para uma pressa que nos assenta bem, ao ponto de nos querermos colocar de pé. A “Libre” traz consigo peso. O riff inicial é amigo do rock e o refrão, esse, é irmão. São 9 min de música e de expressão.


A “Ces bijjoux de fer” é mais uma declamação de alto calibre. Intensa. A “Panthère” chega-nos em tom acústico, como se o som tivesse sido gravado num quarto e com um telemóvel. É um som caseiro. Ouvimos o bater do pé no chão, as cordas com acordes tímidos e a voz sem edições ou efeitos. Só tem 1min40s de duração, mas a intimidade que nela mora? Dura muito mais do que isso. “Cantique”, é mais uma cantiga com uma batida bem eletrónica. As guitarras quando surgem fazem lembrar algo muito próximo àquilo que ouvimos nos filmes de western. O Sergio Leone ia gostar, certamente. É uma fusão complexa de géneros. A “L´homme qui vient”, é a “Patience” dos Guns N´ Roses ou a “Wind Of Change” dos Scorpions. Ou seja, o assobio é introdutório. É um som melancólico, mas só até deixar de o ser. A energia vai surgindo, é uma tendência. O desfecho deste som é soberbo. Por último, “Laissons filer”. É um bom resumo do que ouvimos antes de chegar até esta canção. É com um coro que o álbum se fecha para nós. Por cima desse coro os instrumentos brilham. Tudo para uma boa conclusão.


Apesar do francês não ser propriamente a língua mais fluente de todas, conseguimos perceber que este álbum conta com letras bastante poéticas. Não é de admirar, até porque existem imensas influências líricas, como o já frisado Serge Gainsbourg, assim como Jacques Brel ou Alain Bashung. Composição interventiva.


No que toca à sonoridade, a banda já foi alvo de comparações a Radiohead ou LCD Soundsystem. Comparações bastante elogiosas, portanto. Chet Baker e Miles Davis também entram nas influências do grupo.


Os Feu! Chatterton, neste álbum, mostram-nos como é que a fusão de diferentes estilos deve ser feita. Um álbum autoritário, onde a poesia, o rock e a eletrónica dão um match grandioso e recomendável!

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