Homem Em Catarse

O Afonso Dorido, neste projeto, apresenta-se como Homem Em Catarse, uma vez que é o seu alter-ego e a sua imagem, não de marca, mas de música. Conhecido e reconhecido por ser um multi-instrumentista, o som produzido por ele é repleto de camadas, o que faz com que o engenho e o domínio instrumental, que lhe é inerente, sobressaia recorrentemente e naturalmente. A autonomia respira na produção musical que ele nos espalha. A guitarra nas mãos dele ganha expressão, torna-se quase humana por ser capaz de nos agitar os sentidos. Na guitarra, não são só as cordas os veículos do som. É, também, na guitarra que o Homem Em Catarse nos oferece a percussão da sua sonoridade, de uma forma que é simples, e de outra forma que é eficaz. Existe uma panóplia de pedais que se responsabilizam pelo som eletrificado e progressivo que podemos ouvir. Os pedais assumem grande importância, pois são eles os portadores da diversa personalidade instrumental. A exploração de novos meios para fazer música é incessante. A complexidade do resultado musical de Homem Em Catarse é o que o torna um músico sublime. A ideia musical que ele patrocina é renovadora. Consegue ser um guia turístico por nos levar a viajar, enquanto permanecemos fixos no mesmo espaço. Visitamos lugares, sem nunca sairmos dele, do lugar. Chegam-nos resquícios de histórias e, mais do que isso, de memórias. Com o Homem Em Catarse, sabemos que o nosso país nunca será esquecido. Ele faz questão de nos lembrar que ele existe. A nossa melhor resposta passa por saber ouvir, sabiam?

Em 2015, surge o EP da praxe, designado por: “Guarda–Rios”. Em 2017, após inúmeras viagens realizadas, é feita a compilação desses mesmos quilómetros no “Viagem Interior”. Este mesmo trabalho foi considerado, no ano do seu lançamento, como um dos melhores trabalhos realizados em Portugal, nesse mesmo ano. Este álbum é um exercício de memória, um guia turístico dos cantos e encantos de Portugal. É bom relembrar que há mais país para além do país que conhecemos. O Homem Em Catarse desempenha um papel de promotor, praticamente. Dois anos depois, isto é, em 2019, nasce aquele que é um disco baseado num poema de sua autoria. O “sem palavras | cem palavras”. É um disco que vai muito para além das palavras homófonas. Constituído apenas por instrumentais, encontramos aqui um trabalho que nos permite fazer filmes, aqueles que quisermos. De repente, somos os irmãos Cohen. Um bem-haja ao cinema, caso ele esteja a ler! Esta liberdade interpretativa e artística é muito inerente ao projeto geral de Homem Em Catarse. Apesar do álbum abrigar a voz dos instrumentos e o silêncio das palavras, não deixa de ser curioso que o rastilho deste mesmo disco tenha acabado, ou melhor, tenha começado por ser um poema. A ideia musical tem vindo a solidificar-se com o passar do relógio, prova disso é o recente “Sete Fontes”. Este último trabalho tem o seu quê de mágico. Aqui, vemos invertido aquele paradigma que o Homem Em Catarse sempre nos ofereceu. Os malabarismos com a guitarra e os efeitos eletrificados são colocados na dispensa, ao pé do estendal, para, por sua vez, o piano ser o centro das atenções. Este trabalho foi inesperado. Todavia, esta é a prova de que as coisas inesperadas podem traduzir-se em trabalhos muito bem conseguidos e talentosos. A pandemia foi a principal impulsionadora deste acontecimento, mas convém não esquecer o papel importante do gnration no apoio a esta aventura. Aqui, as sete fontes são lugares de Braga. Existem cidades que se podem sentir privilegiadas, e Braga? É definitivamente uma delas. O Afonso confidenciou-nos que o confinamento fez com que ele conseguisse a olhar para sítios que lhe eram próximos e apreciar a beleza desses mesmos lugares, duma outra perspetiva. Mais do que olhar, ele viu. Ou seja, muitas das vezes não sabemos venerar aquilo que nos rodeia, não reconhecemos de como é bela a simplicidade. O que vale é que o Afonso está cá para nos ensinar. Com o distanciamento e o vazio dos dias, foi tomada a decisão de que adotar o piano que estava perdido algures pela dispensa, penso eu, e aprendê-lo a tocar de forma autodidata poderia ser algo de útil. E foi. Uma visão próxima e genuína daquilo que nos circunda. Algo intimista e inspirador. Este trabalho é, sem sombra de dúvidas, ou com sol, um resultado maravilhoso destes tempos conturbados que nos são, infelizmente, familiares. Estas “Sete Fontes” são, todas elas, potáveis. Bebam-nas e levem mais do que um garrafão para se encherem com a frescura que estas fontes vos querem dar.


Já tive a oportunidade de ver e ouvir o Homem Em Catarse por duas vezes. A primeira delas, em 2018, na Casa da Música. Foi numa Quarta-Feira, lembro-me bem. Fui às cegas para o concerto e não poderia ter saído de lá mais surpreendido com o que tinha acabado de assistir. Naquela noite, a Graça Carvalho acompanhou-o ao sabor do violino, o que acabou por ser um complemento bastante qualitativo. Foi uma espécie de topping de morango numa panacota. Quando dois músicos com m grande se juntam, o desfecho só pode ser digno de aplauso. Ou melhor, quando dois Músicos com M grande se juntam, o desfecho só pode ser digno de aplauso. Um grande. Assim sim. Terminei a noite a beber café de 0,25€ na FLUP, com a certeza de que quando chegasse a casa iria ouvir Homem Em Catarse. Tinha sido uma aula sonora de Geografia. Este ano, vi-o pela segunda vez. Pude constatar que a identidade do som se mantém e que a evolução e o desafio são elementos com o qual podemos sempre contar. A partilha da contemplação territorial, o engenho musical, o estilo autêntico que não se define, a memória e a simplicidade, são alguns dos, (bons), fatores para ouvirmos Homem Em Catarse.


Sempre que tiverem oportunidade, façam o favor de assistir a concertos de Homem Em Catarse. É embarcar na viagem musicada que ele nos oferece e ficar a conhecer aquilo que o nosso país nos guarda. Leiam a entrevista, assim que ela estiver disponível, porque não existe ninguém melhor para nos falar daquilo que é uma ideia musical, do que o próprio progenitor dessa ideia. Uma entrevista que se veste com roupa dominical, ou seja, é e está bonita. Ideias robustas e complexas, muito próximas de componentes filosóficas. Percebemos, com facilidade, o peso que a música tem, sobretudo, de quem faz dela algo primordial e imprescindível. Gostar de Homem Em Catarse é gostar de música. Leiam, oiçam e assistam!

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