Valter Lobo – “Primeira Parte De Um Assalto”

Eis que nos chega às mãos e, sobretudo, aos ouvidos, este que é o terceiro álbum do Valter. A primeira parte deste assalto é composta por nove faixas. O 9 é, por norma, o número usado pelos avançados. Este álbum reencarna um pouco esse significado, uma vez que nos lança até às pontas da intimidade. O Valter tem, desde sempre, uma forma muito peculiar de fazer música. Não é só de como a música é feita mas, também, de como essa mesma música nos chega. Quando ouvimos algo do Valter sabemos que vamos ficar a conhecer um pouco mais de algo que vem de dentro, sem mais, nem menos. O intimismo é tratado por tu. Porquê?

Porque existe confiança e capacidade para fazer levar a mensagem até à cidade, até à aldeia e até onde nós quisermos. A forma de como é abordada a memória, o sentimento e as filosofias conciliadoras desses dois mundos são adaptadas até a um som que nos deixa tudo… menos indiferentes. E esta característica? Esta característica é aquilo que, curiosamente, faz a diferença. Neste disco, todas estas características são mantidas. Estão, seguramente, no frigorífico por estarem tão bem conservadas desde o último álbum. Aqui, existe um certo enigma em torno do T. Ele aparece-nos em mais do que um tema e, de certa forma, conseguimos perceber que o motor lírico deste trabalho é mesmo essa letra e o significado que ela representa. Apesar de a letra representar algo não quer dizer que a mesma seja uma atriz. Ora bem, preparados ou não, o que se seguirá é a review do álbum e dos seus temas. Não esperem ler uma review banal. Esta review será autêntica como a Super Bock. Com isto, estou a colocar em mim uma grande pressão e responsabilidade. Vou tentar lidar com isso! Fomos spoilados, antes do lançamento na íntegra do disco, com dois temas. Foram dois postais que nos convidariam, mais tarde, a visitar o destino do disco.

Como tal, começaremos por esses temas. Aqui as coisas fazem-se por ordem de chegada, como uma ida ao talho em busca de 500g de queijo Limiano. Hoje não se consome fiambre. Isto só é válido se tiverem andado na catequese e, consequentemente, se tiverem medo de represálias. “Para T.”, um som que pode ser, muito bem, o rosto do corpo deste álbum. A intimidade é exaltada, desde logo, através de um piano em parelha com a voz. Nada mais. Só isso. Uma melodia que é capaz de nos deixar mais viciados do que comer batatas fritas de pacote. Esta melodia, como o Valter já teve oportunidade de confidenciar, teve a participação de diversos artistas, como o Benjamim e o próprio CAIO. Quanto ao CAIO, podem ler no site a entrevista que lhe fiz. Desculpem o spam. Faz parte. Neste tema, ficamos a conhecer aquela que é a amplitude vocal do Valter. A entrada no refrão é um exemplo do controlo e do conforto que o Valter tem em ir até ao topo da montanha do tom. Os agudos são inconfundíveis e, quando assim é, a coisa é tudo… menos grave.

Este tema é realmente bonito. Quem estiver apaixonado que se deixe embalar por este tema. Na vossa cabeça, surgirá a compilação dos melhores momentos que vocês têm de/com alguém. De seguida, passamos ao “Fado Novo”. Desta feita, surge a guitarra e o dedilhado. O vibrar das cordas é o que nos faz vibrar do nosso modo silencioso. Aqui, o gigante acorda assim como a esperança. Este fado é uma novidade e, a julgar pelos seus 4min de extensão, podemos afirmar que este som envelhece muito muito bem. O bis na palavra “muito” foi propositado, não foi bug. “O que o sol guardou”, uma faixa que não nos deixa na sombra. Pelo contrário, somos iluminados. A intro desta música faz-me lembrar Still Corners. A guitarra eletrificada e os seus rasgos chegam-nos por inteiro. Enquanto tivemos luz, podemos sempre ir até ao YouTube ou ao Spotify ouvir este tema. Se continuarmos ao sabor desta música, teremos o certificado digital de que temos muito bom gosto. “Privilégio”, é este o “sentimento” obtido por quem ouve o disco. Um tema que roça a balada através da calma, da lentidão e da progressão.

Quando quiserem ver alguém feliz? Dancem. Aqui, a melancolia tem um certo peso. Se isso é errado? Não, já disse que o peso era certo. Um tema que tem outro sabor quando é ouvido em dias de chuva. Já fiz essa experiência. “Uma Melodia”, o meu tema preferido. O baixo desta música está tão bem conseguido que nem consigo explicá-lo bem. A melodia está tão bem estruturada, as texturas, as cores sonoras, o assobio de quem sabe assobiar, a expressão de cada instrumento, sei lá… Tudo faz sentido neste tema. Este é aquele tipo de som que nos agita. É mesmo um carinho este som. Uma frase boa para tatuarem no braço esquerdo: “Não faz estragos, faz uma promessa.” “Fizeste-me Sonhar”, um som que nos adormece até uma apatia proveniente de uma desilusão, seja ela qual for. Se tiverem o coração partido, pensem positivo, este tema foi feito para vos confortar. Não estão sós, meus amigos. Os tons neste tema visitam os graves, algo que nos traz um aroma de mistério, de turbulência, entre outros adjetivos que podem encontrar no Priberam. Os versos que sucedem ao primeiro refrão estão como o mel. Continuem a sonhar, depois de um sonho existirá outro, apesar de pelo meio existirem uns quantos pesadelos.

“Brilha Na Vida”, é uma espécie de carta aberta. Um guia para se levar pela vida fora e pela vida dentro. Uma coleção de conselhos que podem ser seguidos por todos, de forma leve e sentida. A beleza nesta música está mesmo na faceta mais didática e que, de alguma forma, nos é tão próxima. Assim, fica fácil brilhar por muita que seja a escuridão, neste ou naquele momento. “Menina-Mulher”, mais uma intro marcante. Um som que não nos fará falta, uma vez que ele vem ter connosco. Um mundo pacífico que se faz transportar pelos instrumentos. O ímpeto e cunho pessoal são, novamente, uma afirmação. Por muitas interrogações que existam, sabemos que aqui a intimidade é uma afirmação. É querer o bem, nada mais. “Desencanto”, que também tem o seu encanto. Oh, se tem… Aqui, a intro faz-me lembrar coisas ao estilo dos Beach House.

Não só as percussões como as cordas. A forma de como esta música é cantada traz-nos suavidade. Deixamos de precisar de Nívea. As frases chegam-nos em fatias, o ritmo de como este tema é levado é tão bom de se levar connosco para todo o lado. A música e a arte. É isso mesmo. Este é o 9 inicial do disco. Para a segunda parte deste assalto, esperemos que o Valter não seja substituído. O lado mais triste e mais melancólico tem montanhas e montes de beleza. O Valter sabe entregar-nos essa mesma beleza de bandeja. Não me vou alongar mais, a ginástica nunca foi o meu forte. Ouçam este álbum que esta fruta é da época! A fruta faz muito bem!

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